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Shugyo Dojo 10 Anos

Texto 4: AMIZADE, AIKIDO E COMPROMISSO


Recém casado e cheio de dúvidas em relação a continuidade dos meus treinos de Aikido, uma vez que em Curitiba não existia nenhum grupo de Aikido regularmente filiado à União Sul Americana de Aikido – Kawai Shihan, resolvi embarcar para São Paulo com uma mochila, no topo dela, do lado de fora, meu uniforme de Aikido com a faixinha branca pendurada e um Jo (bastão de madeira) nas mãos.
Lembro que estava com receio de levar dinheiro comigo e embarquei no ônibus apenas com alguns trocados com a absoluta certeza de que, no Terminal Rodoviário do Tietê teria um grande e seguro caixa eletrônico para que eu fizesse um pequeno saque para um lanche.
Para minha surpresa e desespero, não existia absolutamente nenhum caixa eletrônico no terminal, ou seja, aqueles trocados serviriam somente para tomar um ônibus não sei para onde, pois ninguém sabia sequer qual ônibus me indicar para chegar ao bairro Jardim Bonfiglioli, na capital paulista.
Em uma atitude extrema de desespero, fui até a janela de um taxi e indaguei ao taxista:
– Daqui até o Jardim Bonfiglioli quanto sairia uma corrida?
No que o moço respondeu:
– Deve dar em torno de uns 25 Reais, mais ou menos.

Em seguida passei a fazer contas, pois o valor da minha passagem de Curitiba para São Paulo tinha me custado 12 Reais...era menos da metade pedida pelo taxista, um absurdo.
Por outro lado, eu não tinha muitas opções e ainda tive que perguntar ao taxista se ele aceitaria um cheque meu, dando-lhe certeza do provimento de fundos. Com a aceitação dele, embarquei no taxi um tanto aliviado mas me sentindo explorado...aborrecido mesmo.
Cheguei em frente ao Dojo de Kawai Sensei exatamente às 18:38 de sábado. Ainda estava claro e a rua deserta com apenas um carro estacionado em frente ao vizinho do meu mestre. Não sabia onde bater pois não existia nenhuma placa indicativa de academia ou que pudesse me dar uma pista de que se tratava de um Dojo de Aikido.
Decidi me sentar junto a calçada e pensar no que fazer. Passaram-se poucos minutos até que um veículo apontou na esquina com um casal de velhinhos japoneses no seu interior. O motorista me pareceu familiar mas não imaginava que teria a grande sorte de conhecer Kawai Sensei logo de imediato.

O carro embicou em frente ao portão da casa à minha frente e o motorista desceu e se dirigiu a mim com um forte sotaque nipônico:
– Ocê, academia bate.
Não tinha mais dúvidas: eu estava diante da maior expressão do Aikido na América do Sul, o introdutor da arte no Brasil...o Shihan Reishin Kawai.
Imediatamente me pus a bater em uma das portas que existiam naquele muro sem nenhuma resposta. Enquanto batia eu não tirava o olho daquele que seria uma das pessoas mais importantes da minha vida. Kawai Sensei, vendo o meu insucesso com a porta, sem nenhuma resposta por parte de quem deveria estar do lado de dentro, abriu novamente o portão, atravessou a rua, pôs o ouvido direito na porta para ver se havia alguém e em seguida, chamou alguém com um forte e vigoroso grito:
– AUGUDOOO!!!
Imediatamente a porta se abriu e um rapaz todo de branco e com a cabeça raspada respondeu parecendo muito assustado:
– Hai, Sensei!!!

Era o Sensei Augusto Barrinha, uchi-deshi de Kawai Sensei, na época e estava terminando de limpar o Dojo. Foi o início de uma boa amizade!
Passamos a noite conversando sobre o meu início no Aikido, Kawai Sensei, Dona Letícia Kawai, as dificuldades de um uchi-deshi, cultura japonesa e medicina oriental. Nessa conversa ouvi pela primeira vez o nome do Sensei Rodolfo Reolon, que estaria acertado para iniciar um trabalho em Curitiba.

Na manhã seguinte, um bonito domingo de sol, havia acabado de acordar e, ainda no tatame, avistei no alto da escada que dá acesso ao Dojo da nossa Academia Central um grupo de pessoas com grandes mochilas, travesseiros e sacos de dormir. Era um grupo de aproximadamente dez pessoas vindas de Florianópolis...meus amigos de Floripa foram até São Paulo para passar uma semana de treinamentos recheadas por divertidos passeios. Eu não estava mais sozinho!!!

Em menos de uma hora já estávamos treinando e compartilhando o que mais gostamos de fazer...Aikido. Ao final do treino, Kawai Sensei veio até o Dojo, fez Jyu Waza com todos os presentes e convidou a todos para um chá:
– Aí chá toma, embora faz favor!!!
Não entendi muito bem e, mesmo assim, acompanhei meus amigos nas risadas. Hoje essa frase é célebre em nosso Dojo. A cada dia que tomamos um chá ela é lembrada com muito carinho e saudade do nosso querido Mestre.

Feito isso, demonstrando organização e união, meus amigos catarinenses se reuniram no centro do tatame para conversar e definir tarefas que iriam desempenhar no Dojo para os próximos cinco dias. Alguns ficaram empenhados com a faxina dos banheiros, outros com a limpeza das arquibancadas, outros do tatame e vestiário, um grupo se responsabilizou pelo almoço e jantar. Posso assegurar a todos que essas atitudes ainda fazem parte da forma que eu enxergo a prática do Aikido...uma união e um respeito muito grande pelos amigos, pelos mestres e pela arte.

Foi uma semana muito intensa com muitos e muitos treinos, sempre seguidos de vigorosas lavagens de quimonos no tanque da academia. Durante o dia, enquanto os quimonos secavam, passeávamos pela cidade de São Paulo, seus pontos turísticos, museus, cinemas, parques e zoológico. Na quarta-feira fomos ao bairro da Liberdade fazer compras. Fiquei encantado com a variedade de coisas que vi e presenciei. Meus amigos paravam em todas as lojas para perguntar preço ou ver artesanatos e artigos orientais. A volta da Liberdade foi outra aventura. Uma longa viagem de ônibus urbano cheio de pacotes com presentes, lembranças, bokken (espada de madeira), shinai (espada de bambu), jo (bastão de madeira) e muito, muito cansaço no corpo. Um calor infernal dentro do ônibus e a maioria do grupo cochilando com as cabeças baixas e sacolejando ao sabor dos solavancos do veículo em decorrência dos buracos nas ruas da capital paulista.

Enfim chegamos na Academia Central e, prontamente fomos tomar banho pois logo mais as 19:30 horas haveria um treino de armas com Kawai Sensei. Era impressionante o cansaço e a vontade de tirar uma soneca antes do treino mas não havia tempo para isso. Após o treino jantamos e fomos direto para a cama, digo, tatame gozar de um merecido descanso. Antes de dormir, não faltaram as tradicionais piadas e histórias de fantasmas samurais que rondavam a Academia Central. Podíamos até ver, no telhado, a silhueta de uma senhora com um véu em posição de seiza fazendo uma oração. Após adormecermos, o descanso que só seria quebrado, lá pelas três horas da manhã, por um “ataque samurai”. Rodheber San, ou “SamuRheber” como ficou conhecido, empunhando um bonito bokken e coberto por uma manta desceu as escadarias da academia gritando “Banzaaaai”. Até acenderem as luzes eu não havia entendido o porquê daquela gritaria toda e correria de todos. Acordei com a indignação de todos pelo meu sono pesado e indiferença ao “ataque samurai” que sofremos naquela madrugada.

No dia seguinte fomos ao MASP ver uma exposição de arte moderna. Confesso que aquilo não me chamou tanto a atenção quanto um filme que estava em cartaz a duas quadras dali. Como ninguém queria vir comigo ao cinema, fui sozinho e nos encontramos à noite para o treino.

Na sexta-feira, fomos com Pádua Sensei até o Zoológico para ver bichinhos. Eu poderia ter aproveitado melhor o passeio se não fossem os calos nos meus pés que estavam me matando. Andamos muito e treinamos muito durante aquela semana até chegar o domingo seguinte em que meus amigos iriam embora.

Quanto a mim, treinei ainda no sábado de manhã e, à tarde, fui até um pequeno comércio ali perto da academia, o “Supermercado Yamashita”, onde comprei uma bonita caneta de presente para o Shihan Kawai e outra para sua esposa, Dona Letícia Kawai. Depois fui até a avenida Francisco Morato para comprar minha passagem de retorno a Curitiba. Domingo pela manhã, mais uma vez, demonstrei todo o meu desconhecimento a respeito do Aikido. Kawai Sensei me chamou para demonstrar e avaliar uma certa técnica. Disse-me, em seu português nipônico:
– Ushiro Koro.
Não entendi nada e fui pela dedução, pensando:
– Bem, ushiro eu sei que é por trás. Agora Koro eu nunca ouvi falar...não sei do que se trata!!!
Kawai Sensei, percebendo minha completa ignorância, pediu a outro praticante, mais graduado, para traduzir...
– É Círculo, se movimente em círculo! Disse ele.
Que vergonha!!! Uma simples palavra. Quando eu achei que já estava entendendo um pouco das coisas, Kawai Sensei me chamou de novo, demonstrou um movimento com Ki e o mesmo com aplicação de força e me disse:
– Di frente... no que eu, imediatamente, me posicionei de frente para ele. Kawai Sensei, mais uma vez, chamou por outro colega do meu lado que, gentilmente, traduziu: – É diferente??? Kawai Sensei está lhe perguntando se é diferente.
Mais uma vez, visivelmente, constrangido, respondi:
– Hai, Sensei, muito diferente!!!

Vexames e bolas fora à parte, foi uma semana de treinos inesquecível. Tirei muitas fotos, me diverti muito e tive a certeza de que tinha encontrado meu caminho. Na segunda-feira pela manhã, fui até a clínica de Kawai Sensei para me despedir e entregar os presentes. Seria a oportunidade de lhe perguntar quando eu poderia treinar Aikido em Curitiba. Ao ver o Sensei, o cumprimentei e fui logo perguntando:
– Sensei, quando Curitiba treina?
Kawai sensei me respondeu prontamente:
– Curitiba, maio, Rodolfo Sensei chega!!!
– Muito obrigado, Sensei, eu aguardo ele chegar. Respondi!
Para minha surpresa, Kawai Sensei tomu a minha mão e pediu:
– Ocê...Rodolfo Sensei ajuda faz favor!!!
– Hai!!!

Novamente o respondi afirmativamente e, pude perceber que aquilo havia mudado muita coisa em minha vida e, talvez, ajudado a construir a história do Aikido no Estado do Paraná.

Sensei Gilberto Marecos
Faixa Preta 4º Dan – Aikikai / Shidoin