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> O Aikido em minha vida, o início- Shugyo Dojo 10 Anos | ![]() |
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Texto 2: O AIKIDO EM MINHA VIDA, O INÍCIO
O ano é 1994...às vésperas da Copa do Mundo de Futebol, esporte que sou admirador e torcedor. Após ficar três anos sem praticar nenhuma arte marcial, decidi procurar uma luta em que eu não estaria pondo em risco a minha integridade física, já que tive uma lesão muito séria no olho direito quando praticava Muay Thai em uma academia aqui de Curitiba.
Trabalhava oito horas por dia e frequentava o curso de Estatística na Universidade Federal do Paraná de segunda a sexta-feira no período noturno e só me restavam os finais de semana para treinar. Optei por procurar o Judo, uma modalidade muito bonita, tão nobre e eficaz quanto o Karate-Do e que não me ofereceria risco de ter outra contusão séria como a que tive anteriormente. Agora entendo que não é bem assim, pois toda atividade física envolve risco de lesão. Por que na arte marcial seria diferente? Frustrado com a falta de oferta de aulas de Judo aos sábados nas academias aqui da capital paranaense, solicitei à minha noiva(atual esposa), que residia em Joinville, estado de Santa Catarina, que procurasse uma academia que tivesse aulas de Judo aos sábados à tarde para que eu pudesse ter o pretexto de viajar todos os finais de semana para treinar...sem segundas intenções, claro!!! Maristela San, por sua vez, toda preocupada em “nos“ ajudar a encontrar uma academia em sua cidade, pois eu seria “obrigado” a ir a joinville todos os finais de semana para treinar...e namorar, foi até a Associação Colon de Judo, uma academia tradicional e muito bem recomendada daquela cidade. Para minha nova frustração, não havia aula de Judo aos sábados. A academia só podia oferecer aulas de Aikido, uma arte marcial ainda desconhecida por mim, nos sábados a tarde, sob a orientação do professor Fernando Pilz, faixa-preta 1º Dan. Naquela mesma semana, recebi pelo correio uma carta de minha noiva (naquela época ainda não se utilizava o e-mail) explicando do que se tratava aquela modalidade diferente e que ninguém ainda ouvira falar, ao menos não no meu núcleo de relacionamentos. Me surpreendi com o que as palavras daquela carta revelavam e a cada parágrafo eu ficava mais intrigado e tentado a conhecer e praticar essa modalidade de nome estranho e que sugere brincadeiras de pessoas desinformadas como eu. No sábado seguinte, lá estávamos nós para assistir a um treino de Aikido. Eu, a Maristela San e meu cunhado João Luiz. Ficamos muito impressionados com o que víamos. Era uma turma pequena, mas o que mais me chamou a atenção, além dos movimentos circulares e exóticos, foi a educação, o respeito e a tranquilidade transmitida pelo Sensei, o que me conquistou de imediato. No sábado, retornei para um treino experimental. Me paramentei com meu velho uniforme do Muay Thai, calça comprida de agasalho com as pernas bem folgadas e camiseta preta com duas serpentes Naja às costas. Tudo para que percebessem que eu não era um principiante em artes marciais e poderia ser perigoso se provocado...coitado!!! Minhas primeiras quedas foram um verdadeiro teste para as estruturas da academia, pois a cada tombo as vidraças tremiam como em um terremoto. Tudo, é claro, acompanhado de disfarçadas gargalhadas da Maristela e do meu cunhado João Luiz, que não perdiam nenhum detalhe daquela verdadeira demonstração de tombos e micos a que me submeti...admito que foi muito engraçado. Vencido esse primeiro momento, algumas dores pelo corpo e uma dificuldade em movimentar o ombro direito, retornei a Curitiba e, já na segunda-feira, adquiri meu primeiro Dogi – uniforme de treino, ato que, definitivamente, me ratificou como praticante de Aikido. Já para o primeiro treino uniformizado, desenhei caprichosamente um Kanji (ideograma japonês), da palavra Aikido em uma das pontas da minha faixa branca e, orgulhosamente, amarrei na minha cintura. Não preciso nem comentar que fiz um nó completamente errado e que causou risos de quem estava presente. Desse tempo, fica em primeiro plano na minha memória, a satisfação que senti quando aprendi a fazer uma queda para trás de maneira satisfatória. Isso com a ajuda de um colega, o Rodrigo Arsego, que ficou durante um longo tempo após o treino, de maneira paciente e com extrema boa vontade em me ajudar a melhorar aquele movimento que, para mim, parecia impossível de executar. Foram dias de muita alegria que guardarei com carinho na minha memória e, principalmente, em meu coração. A turma era composta, por ordem de antiguidade: Rodrigo Arsego, os irmãos Rafael e Giuliano, Marcelo, o Marcos e eu. Mais tarde, a esposa do Sensei Fernando, Denise San, também iniciou a prática. Eram três horas de treino sendo que uma hora era reservada somente para o aquecimento. O Sensei Fernando realmente não dava folga e quando o treino das técnicas começava já estávamos pisando em nossas línguas com um olhar fixo no galão de água na sala ao lado. Tive uma infância muito boa e aprontei muito, fiz bagunça, fugia para jugar futebol, fugia para andar de bicicleta na rua atrás de casa e depois assumia as surras que levava da minha mãe. Para não correr o risco de cair em um submundo de drogas e outras coisas ruins, meu avô e minha mãe decidiram me colocar para trabalhar. Construíram uma casinha de aproximadamente três metros quadrados e instalaram uma moenda para vender caldo de cana. Com perdão do trocadilho mas, “doce ilusão”, moía o bastante para três copos, um para o cliente e dois para mim...não sobrava nem para o “chorinho” do cliente. Fiquei por três anos trabalhando com o caldo de cana, o que me impedia de brincar com os amigos. Isso gerou um grande desconforto e constrangimento para mim. Todos passavam na frente do meu caldo de cana sorrindo para mim com certo sarcasmo e deixando que eu ficasse sabendo qual seria a próxima brincadeira. Apesar de ser um amante do futebol, nunca fui exatamente um craque, aliás, eu sempre fui o último a ser escolhido na divisão dos times...isso quando o time preferia jogar com um a menos para ficar mais equilibrado. Essa minha, digamos, pouca qualidade no futebol, era compensada com muita vontade e correria, pois saúde, graças a Deus e a minha adorável mãe, eu sempre tive muita. A cada jogada, a cada drible ou tentativa de chutar a bola em gol eu ganhava uma sonora vaia ou um “elogio” que geravam risos e gargalhadas das pessoas a minha volta e, lá no fundo, me incomodava um pouco. Até o dia em que decidi parar de me preocupar com o futebol...apenas me contentei em torcer pelo meu time, ir ao estádio ou ver pela televisão. Eu não queria mais aquela sensação de ser o descoordenado, ou o “cego” e ouvir dizer que eu tinha dois pés esquerdos, ou que jogava com os cadarços desamarrados...comentários como: “Gilberto Maçaroca” e coisas do gênero. Já era adulto, estava noivo e queria conquistar mais respeito...mesmo nas brincadeiras. Busquei o Aikido porque nele percebi que podia encontrar esse respeito. Mesmo com minhas dificuldades de coordenação motora eu poderia conquistar o meu espaço sem competir com ninguém. Entretanto, como nem tudo são flores em nosso caminho, em um treino-demonstração com Pádua Sensei, na época 3º Dan, em Joinville, tive que passar por essa sensação novamente. Após ficar por quase uma hora na posição seiza, sentado sobre os calcanhares, levantei para treinar com o Sensei Pádua. Da mesma maneira que levantei, me estatelei no chão. Meus pés haviam “dormido” e eu, simplesmente, não conseguia levantar do chão. Foi uma gargalhada geral e aquela sensação do “Gilberto Maçaroca” estava de volta. Aí vem, talvez, o momento mais decisivo de toda a minha história no Aikido: Pádua Sensei, com sua peculiar calma e paciência, sorriu e, demonstrando preocupação, perguntou: “ -- Tudo bem? Pode continuar? Se quiser eu espero, fique tranqüilo”. Todos se calaram aparentando certo constrangimento pela situação. Aquilo foi uma lição de como eu gostaria de ser. Ter uma alta graduação no Aikido, fala mansa e respeito ao seu semelhante; conquistando a atenção e respeito de todos pela atitude gentil que teve comigo. Naquele momento decidi que o Aikido estaria na minha vida para sempre...de corpo e alma. No próximo mês vou relatar meu encontro com Nicolás Sensei, nossos treinos na Universidade Federal do Paraná nos tatames velhos cobertos de poeira, nossas caminhadas em turma e o lanche na casa da minha mãe. Até a próxima!!! Sensei Gilberto Marecos Faixa Preta 4º Dan – Aikikai / Shidoin |