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>Encontros e Desencontros - Shugyo Dojo 10 Anos | ![]() |
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Texto 3: ENCONTROS E DESENCONTROS
Ao chegar ao Dojo de Joinville para o meu habitual treino de Sábado à tarde, Sensei Fernando Pilz veio até mim e disse o seguinte: “– Não me deixe esquecer. Ao final do treino preciso lhe passar o número de telefone de um faixa-preta que mora em Curitiba para que vocês possam se encontrar e treinar. Ele é peruano e nos encontramos todos os meses lá na Academia Central, em São Paulo por ocasião dos Yudanshakai – treino para faixas-pretas.”
Na segunda-feira, ainda pela manhã, liguei para o telefone anotado pelo Sensei Fernando e, do outro lado da linha, uma voz com um forte sotaque espanhol se apresentou como Nicolás. Fiquei um pouco constrangido por se tratar de um faixa-preta de Aikido e eu um mero iniciante e ainda com pouquíssimos treinos no currículo. Combinamos de nos encontrar após o meu expediente no banco às 18:30 horas em frente a Universidade Federal do Paraná, nas escadarias da Praça Santos Andrade. Conforme combinado, às 18:20 horas eu já estava lá, cheio de expectativas, quando percebi que uma velha afirmação da minha esposa Maristela era verdade...”homem não sabe combinar encontros”. Estava eu lá na frente da universidade, uma porção de pessoas indo e vindo, outras sentadas nas escadarias bem como na base das bonitas colunas daquele prédio histórico de Curitiba e eu não sabia uma característica sequer da pessoa que eu estava esperando, nem cor das roupas ou mesmo alguma característica física. Ou seja: o reconhecimento seria por pura dedução. Observei aquelas pessoas que passavam por ali. Estudantes, professores, funcionários e outras que não aparentavam nenhuma característica que os remetesse ao meio acadêmico, que o local sugeria. Atentamente observava a todos que circulavam por ali quando, de repente, avistei um rapaz de cabelos negros olhos amendoados e ligeiramente puxados e uma pasta do curso de turismo no colo, sentado à base de uma das colunas de sustentação do prédio. Me dirigi àquele sujeito e indaguei: “– Nicolás???”. No que ele respondeu: “– Gilberto???”. Eu estava certo e acabara de encontrar uma das pessoas mais queridas e agradáveis que já conheci. Trata-se do Nicolás Sensei, ou simplesmente Nico... tal era a sua simplicidade e humildade, mesmo apesar de possuir uma das técnicas mais bonitas e eficazes que conheço. Por coincidência e também para nossa surpresa e alegria, tínhamos um horário livre das aulas na universidade bem nas quintas-feiras, coisas do destino, quando marcamos um encontro no campus Centro Politécnico, que era um complexo vizinho ao Departamento de Educação Física, onde existiam muitos tatames que poderíamos utilizar para treinar. Na realidade quem iria treinar era ele pois cheguei a pensar que eu só iria lá para dar vexame. Chegando lá, avistamos os tatames e fomos ávidos para começar o treino e rolar um pouco. Queria muito mostrar tudo que eu havia aprendido após um mês de treino e quatro aulas de três horas com o Sensei Fernando, em Joinville. Apesar desse entusiasmo todo, foi desanimador perceber que os tatames estavam com uma grossa camada de poeira que pareciam estar abandonados há muito tempo. Nenhuma vassoura ou panos estavam disponíveis no local. O que nos obrigou a procurar em todo o ginásio em cada porta dos banheiros ou embaixo das escadas. Com tudo um pouco mais limpo e já devidamente vestidos, eu com meu Dogi (quimono) da marca Dragão, faixa branca e chinelos e o Sensei Nico com seu Dogi trançado e um magnífico e imponente Hakama azul petróleo, que só pude perceber que não era preto muitos anos mais tarde depois de uma conversa sobre o Hakama. Fizemos um breve aquecimento e daríamos início ao treinamento dos Ukemi (quedas). Travei e não conseguia nem começar. Nicolás Sensei, pacientemente, foi insistindo e me encorajando a cair. E se resumiu àquilo o meu primeiro treino de Aikido em Curitiba...uma fiasqueira só. Frustração total, principalmente para mim, que esperava um desempenho um pouco melhor de minha parte. Após esse pseudo treino, já perto das 22:00 horas, decidimos ir a pé até a minha casa, que ficava a uns trinta minutos do ginásio. Chegando lá, minha mãe dormia confortavelmente quando cheguei. Comecei a procurar algo para comermospois sabia como seria difícil que Nicolás Sensei encontrasse alguma coisa para comer em casa, pois era tarde da noite, estudante, estrangeiro, morava em uma pensão no alto da nossa Igreja Matriz - Catedral Metropolitana de Curitiba, na Praça Tiradentes. Ao ouvir minha movimentação pela cozinha, minha mãe desceu as escadas quando apresentei meu novo amigo. Tanto eu quanto minha mãe, somos profundos simpatizantes do idioma espanhol, pois meu pai é paraguaio e essa língua me é muito familiar, desde pequeno. Imediatamente ela se pôs a preparar alguns sanduíches para satisfazer aqueles dois amigos famintos e cheios de coisas para conversar e compartilhar. Em alguns minutos devoramos todos os sete hamburguers e tratamos de descansar, pois no dia seguinte o despertar seria cedo e muito trabalho nos aguardava. Eu no banco e ele na faculdade de turismo. Voltando aos treinos em Joinville, em alguns sábados, o Sensei Fernando nos levava a Florianópolis para participar de treinos com o Sensei Pádua e seu grupo, a Associação Catarinense de Aikido – ACAI. Posso atestar que um forte laço de amizade se estabeleceu com aqueles encontros. Laços que perduram até os dias de hoje. Lembro que eles estavam combinando uma viagem à São Paulo a fim de passarem uma semana na Academia Central. Como eu estaria em férias do banco, me “escalei” para estar junto deles nessa “semanada” de muitos treinos e passeios em São Paulo. Veio o final do ano, tive que suspender meus treinos em Joinville por ocasião de meu casamento com a Maristela e não saberia como seriam as coisas. Após o casamento, minhas viagens a Joinville seriam mais restritas e eu ficaria mais tempos afastado dos treinos. Com relação a viagem com o grupo da ACAI, fiquei sabendo que o fretamento de um ônibus não foi concretizado e os amigos de Floripa não iriam mais a São Paulo. Decepcionado mas, ao mesmo tempo, apreensivo com relação ao meu futuro como aikidoísta, resolvi ir a São Paulo mesmo assim. Ainda que sozinho e sem a mínima condição técnica ou física de poder me fazer passar por um praticante de Aikido. No próximo mês, irei relatar minha viagem a São Paulo, meu primeiro encontro com o Shihan Kawai, sua adorável esposa, Dona Letícia e minha experiência em novos tatames...micos e passeios incrivelmente agradáveis bem como a chegada do Sensei Rodolfo a Curitiba e meu compromisso com Kawai Shihan. Sensei Gilberto Marecos Faixa Preta 4º Dan – Aikikai / Shidoin |